Dia Internacional da Mulher - breve homenagem

Hoje, Dia Internacional da Mulher, gostaria de homenagear a todas nós através da minha mãe, Maria Cleonice Amorim.

Geradora de 11 filhos, dos quais nove mulheres, traz na sua história as marcas da submissão e subjugação dos homens: seu pai e meu pai - pai dos seus filhos e marido.

Menina da roça em Pão de Açúcar, no município pernambucano de Pesqueira, seguiu com a mãe, Dominicia, e mais cinco irmãos (e irmãs) até onde o pai, Zezinho, já estava trabalhando: Forquilha, distrito de Glória (BA), atual Paulo Afonso.

Sua função social, instrução passada por sua mãe, era servir bem ao marido, parir, cuidar dos filhos e da casa, mesmo que fosse um barraco. Parou de estudar no segundo livro, mas nunca esqueceu o que aprendeu. Mostra de que apreendeu o conhecimento.

Casou aos 17, com meu pai, Nilton Cavalcante Amorim, alagoano, também trabalhador como o sogro na grande Companhia Hidrelétrica do São Francisco, que estava construindo a 1ª Usina Hidrelétrica de Paulo Afonso.

O casamento impôs o afastamento das amizades e o suportar das traições do marido. "Homem é assim mesmo", dizia sua mãe. Suportar, suportava, mas não sem uma boa briga, de externalizar sua insatisfação para o homem que amava.

Menina-moça, tinha a experiência de cuidar dos próprios irmãos menores. Foi só mudar de casa e passar a cuidar dos seus- um a cada intervalo de um a dois anos. Uma prova árdua, que poucas mulheres da atualidade aguentariam. E, claro, perdeu o controle algumas vezes, usando o puxão de orelha, o beliscão ou a chinelada para conter os impulsos dos filhos mais danados.

Com 11 filhos (apenas uma casada) e antes dos 40 anos, sofreu ao ser "trocada" por uma jovem de 17 anos. Perdeu a razão, brigou, esperneou na defesa do seu casamento, mas depois desistiu. Recuperou a razão, mas as marcas ficaram no coração, amenizadas apenas quando descobriu a força do perdão.

Como pássaro que fica preso na gaiola e não consegue voar quando a porta é aberta, mamãe não conseguiu abrir seu coração para um novo amor. Nem mesmo realizar o que tanto desejava quando menina e moça: estudar. Mas descobriu o prazer da leitura, que alivia um pouco a saudade de mãe que hoje tem seus filhos espalhados em quatro estados brasileiros.

Mãe amorosa, se aflige pela aflição dos filhos; se alegra com as conquistas de cada filho e neto (19 - sendo nove netas). Mulher guerreira, convive diariamente com doenças crônicas que se instalaram pelos picos emocionais da sua luta. Mulher solidária, conquistou espaço no coração das filhas do homem a quem amou e até da própria mulher que convive hoje com ele - Delma.

No coração do meu pai, conquistou o respeito e o carinho. Uma mulher que há muito se arrependeu de ter, por alguns momentos, pensado em desistir de tudo.

As lutas hoje não são menores que as lutas que minha mãe viveu e vive. Queria que ela sorrisse mais, viajasse mais, tivesse se permitido novo amor. Mas ela é daquelas raras mulheres que só tiveram espaço no coração e na mente para um homem só. Para um único amor.

Através dela, de dona Nicinha, minha mãe, desejo a todas as mulheres, em especial às minhas 13 irmãs ( Fátima, Vitória, Vania, Mirian, Ana, Aparecida, Vera, Luciana -da minha mãe; Andrea, Sandra, Fabiane, Tatiane e Liliane - do meu pai), que se permitam em todos os momentos a paz no coração. Que tenham a serenidade para aceitar as coisas que não possam modific ar, coragem para modificar o que possam e sabedoria para perceber a diferença. Só assim poderemos, nós mulheres, fazer, de fato, a diferença.


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